
Lembro-me como se fosse ontem. Estavamos nas Maurícias, em lua de mel. A aproveitar um clima que afinal não era bem de verão. Tinhamos acabado de vir da piscina, chegamos ao quarto e ligamos a TV. Estranhamente estavam a dar as mesmas imagens em todos os canais noticiosos. Aviões a chocar contra duas torres que ardiam abundantemente, pessoas a fugir, cobertas de um manto branco, aos gritos no meio de uma tremenda confusão. Pó, muito pó e desespero, muito desespero. Só podia ser um qualquer filme americano (tipo assalto ao arranha céus), com um daqueles orçamentos de fazer inveja ao cinema europeu. Ou então um filme de zombies. Mas não podia ser, pois na CNN não passam filmes, muito menos com comentários de jornalistas apavorados. Surreal, absolutamente surreal. Lentamente percebemos o que se estava a passar. Era então realidade. Uma realidade que não se sabia como começara nem como iria acabar. Seria o início de uma nova guerra mundial ou algo similar ? E logo em solo da maior potencial mundial. Muito estranho, muito estranho mesmo, sobretudo quando se está tão longe de casa, do nosso ninho. Meios atordoados com os acontecimentos, e porque a fome não liga a confusões ou misérias alheias, saímos para jantar. Em nosso redor todos discutiam o mesmo tema. Todos com ar de desorientados, tal qual uma bússola no meio de um campo magnético. Até os empregados do Hotel que, ao invés de estarem nos seus postos de trabalho, se encontravam reunidos em pequenos grupos de 5 ou 6 elementos a assistir às ditas imagens. Tudo parecia virado de pernas para o ar. A ordem parecia perdida. Foi assim nesse dia. Mas as luas passaram e tudo voltou à normalidade, pelo menos à normalidade possível. A registar ainda uma fragata de guerra atracada no porto da ilha de Reunião (solo francês), para onde fomos depois das Maurícias. Era afinal um sinal de que a coisa estava feia, que assumira uma dimensão global. Passado quinze dias de férias e apesar do nosso receio de ficarmos retidos numa terra estranha, lá chegamos finalmente a casa, ao nosso castelo. Foi assim, mais ou menos assim, que assistimos - eu e a S. - ao 11 de Setembro de 2001. Sabemos agora que o nosso castelo não era afinal feito de pedra, como pensaramos, mas antes de areia. Daquela areia frágil que voa com o vento, daquela areia fina que se perde por entre os dedos, daquela areia inseguraque desaparece nas ondas do mar.